Mesa “As Mulheres na Via-Mão da História” reuniu Ana Maria Machado, Lívia Sant’Anna Vaz e Flávia Oliveira no 2.º Flipetrópolis

Com o tema “As Mulheres na Via-Mão da História”, a escritora e jornalista Ana Maria Machado, a escritora e promotora de justiça Lívia Sant’Anna Vaz e a jornalista Flávia Oliveira se reuniram no palco do 2.º Festival Literário Internacional de Petrópolis – Flipetrópolis – na noite desta sexta-feira, 28 de novembro.

“Mais do que um título potente, estamos aqui também fazendo um chamado para a história do Brasil e do mundo. Pelas vozes que muitas vezes criaram sem terem seus nomes conhecidos”, abriu Lívia Sant’Anna Voz, falando sobre o tema da mesa. “Queremos pensar quem tem direito a contar as histórias”, ela complementou, celebrando as duas mulheres que, com ela, compartilham a conversa.

Lívia destacou a força de Ana Maria Machado na formação de leitores e celebrou o fato de que a escritora já presidiu a Academia Brasileira de Letras. Ainda sobre a ABL, ela também destacou a recém-posse da primeira autora negra para a instituição, Ana Maria Gonçalves, arrancando aplausos efusivos do público.

“Acho impressionante a força das mulheres que estão escrevendo no Brasil hoje”, declarou Ana Maria Machado. “É muito bonito esse momento. Está florescendo. Parece que é muito. Mas é resultado de um processo lento. (…) Por isso eu acho que a imagem do florescer é boa, criando raiz, levando tempo”, ela acrescentou. Na sequência, a autora declarou ter sofrido mais preconceito por ser mulher no mundo do jornalismo, do que no literário, relembrando um caso sofrido no passado. “Não é só na literatura. A briga é muito grande. A luta é em toda a extensão”, ela concluiu.

“Uma analista aguda da desigualdade do nosso país, com uma capacidade de traduzir o país com suas contradições e com afeto”, celebrou Lívia acerca da colega de mesa Flávia Oliveira. Ela, então, pediu para que Flávia contasse sobre sua experiência ao narrar, enquanto jornalista e mulher negra, a sua própria história, num lugar ainda tão raro para as mulheres negras, o jornalismo.

“Há uma interdição de gênero. Mas há uma interdição de raça e de classe”, Flávia lamentou sobre o fato de o Brasil, ainda não ter tido uma ministra do Supremo Tribunal Federal negra. “Nós mulheres negras podemos falar sobre qualquer coisa, estamos completamente capacitadas”, ela prosseguiu. “Esse hábito do Brasil, das instituições, de erguer muros. Mulheres, negros, indíginas, estçao aquém desse muro, não ultrapassaram esse muro.”

“Uma jornalista preta, nascida no subúrbio do Rio de Janeiro que ocupa uma posição no jornalismo de opinião, o que não é trivial”, destacou Flávia Oliveira sobre sua trajetória profissional. “O que eu posso é usar a minha vivência para tentar construir, ou o desconforto, ou a empatia. Cada um escolhe o que quiser”, ela concluiu.

“Como a literatura pode ser ponte de ligação entre mulheres de gerações diferentes?”, Lívia perguntou para Ana. A escritora destacou como as histórias de mulheres, mesmo de gerações diferentes, se aproximam muito. Além disso, refletiu sobre como a literatura é também espaço de contar histórias e experiências que são diferentes da dela.

“Xangô é o orixá da justiça, Oyá também. (…) Eu só ia conseguir escrever nessa perspectiva de mulher negra, a partir de outras referências. Essas referências vêm da orixálidade”, Lívia Sant”Anna Vaz refletiu sobre o seu trabalho e a sua escrita. Sobre a possibilidade de mudança no cenário brasileiro, ela concluiu: “Precisamos de todas e todos. Sozinhas nós não vamos conseguir”.

Respondendo a um questionamento de Ana Maria Machado, Lívia refletiu sobre a importância da escuta. “O primeiro passo é reconhecer o privilégio da branquitude. Quando você [branco] reconhece, você se coloca no lugar de escuta”, ela destacou. “As coisas devem ser construídas coletivamente. Justiça com as pessoas. Essa escuta é fundamental, esse reconhecimento de privilégios também. Mas, sobretudo, essa disposição a construir com.”

“A gente aprendeu tudo sobre vocês. Quando falo ‘vocês’, falo desse sistema colonial que nos formou por imposição. Qual o nosso desejo? Que saibam de nós. Aprendam sobre nós. Fiquem desnudos como nós ficamos, em algum momento, desnudos por imposição”, complementou Flávia. “Vocês precisam saber de nós.”

“Quais são as mulheres, reais ou fictícias, que caminham com vocês nessa via-mão da história?” Lívia perguntou para as colegas de mesa ao fim da conversa. “Mãe, avós, tias”, destacou Ana, relembrando uma tia, mulher absolutamente libertária. A escritora também relembrou professoras fundamentais em sua vida.

 “Não posso começar a falar de mulheres sem falar da minha mãe. Que é, de fato, a figura central da minha vida”, respondeu Flávia. “Sem dúvida nenhuma, eu sou produto dessa mulher que acreditou na educação.” A jornalista prosseguiu: “Mãe Beata de Iemanjá, Mãe Stella de Oxossi, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Jurema Werneck, Miriam Leitão. (…) Eu sou produto de muitas mulheres. A grande guia da minha vida é a minha orixá Iemanjá”, ela se emocionou. “Quem me leva por esses mares é minha orixá.”

“Que nunca mais a história do Brasil seja contada sem nós. Sem nossa voz, sem nossa escrita, sem nossas vivências”, conclamou Lívia Sant’Anna Vaz ao fim da conversa, que foi concluída com uma canção para Iemanjá.

Sobre o 2.º Flipetrópolis

A 2ª edição do Flipetrópolis acontece de 27 a 30 de novembro, quinta-feira a domingo, no Palácio de Cristal, e tem como tema “Literatura, Encruzilhada e Arte”. O evento apresenta mesas de bate-papo com escritores, lançamentos de livros, prêmio de redação e desenho, oficinas, e atividades educativas para as crianças. O Autor Homenageado é o Antônio Torres, romancista consagrado e membro da Academia Petropolitana de Letras e da Academia Brasileira de Letras. Outro destaque desta edição é a entrega oficial do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano à vencedora de 2025, a escritora Sueli Carneiro.

Realizado graças à Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, o 2.º Flipetrópolis tem o Patrocínio Máster da GE Aerospace e o apoio da Zeiss, da Caixa, da Academia Petropolitana de Letras, do Ipeafro e da Prefeitura de Petrópolis. Parceria de Mídia: Amado Mundo. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, com Libras, audiodescrição e transmissão on-line via Youtube @flipetropolis.

Serviço

2.º Festival Literário Internacional de Petrópolis – Flipetrópolis

De 27 a 30 de novembro de 2025, quinta-feira a domingo

Local: programação presencial no Palácio de Cristal e programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @‌flipetropolis

Entrada gratuita

Informações para a imprensa:

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Letícia Finamore – 31 98252-2002