
Por Letícia Finamore
A noite deste sábado, 29 de novembro, no 2.º Flipetrópolis, contou com a mesa de debates “Territórios e vozes: da terra à cidade no Brasil negro”. Os escritores Itamar Vieira Junior, Eliana Alves Cruz e Teresa Cárdenas foram entrevistados pelo jornalista Jamil Chade, que abriu a mesa apresentando-se ao público e destacando o privilégio de dividir o encontro com os presentes. De forma espontânea, contou que foi surpreendido pelo convite para mediar a conversa e que estava assumindo a condução do debate praticamente em tempo real, descobrindo os caminhos da mesa junto com o público. Em tom de brincadeira, afirmou que “quem sabe faz ao vivo”, reforçando a ideia de que o jornalismo também é feito no improviso e na escuta atenta. Em seguida, Chade apresentou o tema do encontro, dando o tom da conversa que seguiria a partir dali, atravessando questões sobre pertencimento, identidade e as múltiplas narrativas que constroem as experiências negras no país.
Eliana Alves Cruz foi a primeira questionada a respeito do tema, e respondeu que “todo lugar é nosso”. A ideia apresentada é que todos os espaços são nossos e que essa reivindicação ainda acontece com atraso. Por muito tempo, pessoas negras foram constrangidas a se encolher em determinados cantos e a olhar certos solos e territórios como se não as pertencessem, como se não fossem espaços autorizados a elas. No mesmo dia, a Ministra do STF Cármen Lúcia havia participado de uma roda de conversa horas antes. Pela sua presença, Eliana comenta que falar depois de Cármen Lúcia é difícil, mas afirmou que falar de democracia é, necessariamente, falar de acesso a todo o solo brasileiro, para todas as pessoas.
Em seguida, Jamil pergunta: “quais são as vozes?”, e resposta foi que todas as vozes insurgentes, todas as vozes descolonizadas, todas as vozes que minimamente se conscientizaram da sua brasilidade para além da cor e da origem. A conversa englobou, então, a escritora Cubana Teresa Cárdenas. O jornalista a questionou, perguntando que, quando se fala em território e vozes em Cuba e quando se fala em território e vozes no Brasil, quais são as semelhanças e quais são as diferenças entre o mundo hispano-americano e o mundo lusófono? Em sua fala, Teresa afirmou que Brasil e Cuba são muito parecidos e, ao mesmo tempo, muito diferentes. Explica que o início da formação do povo negro em ambas as nações é similar e que existe a mesma ferida histórica, mas também a mesma força para resistir.
A cubana comenta que, no Brasil, sente-se abraçada pela literatura das mulheres negras. Para ela, essa visão amplia o entendimento do direito à democracia e ao ato de levantar a voz, algo que percebe como diferente em Cuba. Segundo a escritora, após a Revolução Cubana de 1959, houve muitas iniciativas em favor do povo, das mulheres, da população pobre e do povo afrodescendente. Com o tempo, no entanto, esse processo teria caminhado mais no sentido de homogeneizar a sociedade. Nesse movimento, afirma que se perdeu um pouco da singularidade do povo negro, já que não interessava discutir essas especificidades dentro da ideia de que todos eram iguais e tinham as mesmas condições. Para ela, isso acabou sendo, de certa forma, um movimento contrário aos próprios interesses da população negra.
Eliana Alves Cruz retoma a fala e menciona uma outra mesa que havia realizado anteriormente e comenta que teme se repetir, mas logo reformula, dizendo que prefere entender a repetição como uma reafirmação do que já foi dito. Afirma que o Brasil é um país que, durante muito tempo, viveu sob o mito da democracia racial. Segundo ela, houve apagamento, embranquecimento direcionado e uma negação muito forte das próprias origens por parte da população. Hoje vive-se um momento novo, de valorização dessas histórias. Esquecer, escamotear ou “varrer para debaixo do tapete” as diferenças, diz, não salvou o país de sua desigualdade e de suas divisões. Ao contrário, fez com que essas desigualdades se ampliassem, levando a um Brasil, em 2025, ainda muito desigual e com oportunidades muito diferentes.
Itamar, por sua vez, afirmou ainda que essas histórias se constroem a partir de biografias que são ficcionais, mas que emulam, sobretudo, a história de seu povo. Destaca que não dá para falar do Brasil sem levar isso em conta, lembrando que hoje existem dados que mostram um país que se reconhece como de maioria negra e, de um censo para o outro, cada vez mais indígena. Segundo ele, o número de pessoas que se autodeclaram indígenas mais do que triplicou, o que revela um processo de maior conscientização da população.
Antes de finalizar o encontro, Jamil Chade afirmou que aquelas três vozes não são apenas vozes de resistência ou de construção de modelos de restituição. Para ele, a literatura das três é extremamente potente e, no seu caso, é um privilégio estar ali ao lado delas.
Sobre o 2.º Flipetrópolis
A 2.ª edição do Flipetrópolis acontece de 27 a 30 de novembro, quinta-feira a domingo, no Palácio de Cristal, e tem como tema “Literatura, Encruzilhada e Arte”. O evento apresenta mesas de bate-papo com escritores, lançamentos de livros, prêmio de redação e desenho, oficinas, e atividades educativas para as crianças. O Autor Homenageado é o Antônio Torres, romancista consagrado e membro da Academia Petropolitana de Letras e da Academia Brasileira de Letras. Outro destaque desta edição é a entrega oficial do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano à vencedora de 2025, a escritora Sueli Carneiro.
Realizado graças à Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, o 2.º Flipetrópolis tem o Patrocínio Máster da GE Aerospace e o apoio da Zeiss, da Caixa, da Academia Petropolitana de Letras, do Ipeafro e da Prefeitura de Petrópolis. Parceria de Mídia: Amado Mundo. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, com Libras, audiodescrição e transmissão on-line via Youtube @flipetropolis.
Serviço
2.º Festival Literário Internacional de Petrópolis – Flipetrópolis
De 27 a 30 de novembro de 2025, quinta-feira a domingo
Local: programação presencial no Palácio de Cristal e programação digital no YouTube, Instagram e Facebook – @flipetropolis
Entrada gratuita
Informações para a imprensa:
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