
A cerimônia de entrega do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano para Sueli Carneiro, que acontece em 28 de novembro de 2025 no Palácio de Cristal, durante o 2.º Flipetrópolis, celebra também a vida de Lélia Gonzalez. Embora o regulamento do prêmio exija que o homenageado tenha publicado um livro no ano anterior, a escolha nunca se baseia apenas na qualidade literária da obra. No caso de Sueli Carneiro, Lélia Gonzalez: um retrato, lançado pela Zahar em 2024, cumpre esse requisito formal, mas não explica por si só a escolha da intelectual para a honraria. O que a distingue é um percurso que, há décadas, ilumina debates fundamentais sobre racismo, sexismo, desigualdade e educação no Brasil.
O Prêmio Juca Pato reconhece uma vida inteira dedicada a pensar o Brasil com profundidade, coragem e compromisso ético. Sueli Carneiro, filósofa, escritora e uma das mais importantes ativistas antirracistas do país, chega ao festival como vencedora da láurea — e como protagonista de uma história que transcende a própria obra mais recente.
No centro desse percurso está também o trabalho de resgate e valorização de Lélia Gonzalez, pioneira do pensamento feminista negro e figura essencial do movimento social brasileiro. No livro, Carneiro revisita a vida e a obra da intelectual mineira, revelando sua força, sua antecipação histórica e a amplitude de seu legado. Mas o reconhecimento que agora recebe é ainda mais amplo: ele honra toda uma vida voltada a compreender e transformar o país.
A decisão dos associados da União Brasileira de Escritores segue exatamente o princípio estabelecido por Marcos Rey ao criar o prêmio em 1962: destacar personalidades que, além de atenderem às exigências formais, tenham contribuído significativamente para o desenvolvimento intelectual do Brasil e para a defesa de valores democráticos, humanos e republicanos. Em Sueli Carneiro, esses critérios se encontram de forma exemplar.
Nos últimos anos, sua presença na cena internacional também se ampliou. Em 2024, tornou-se a primeira brasileira a receber a cidadania do Benim, em reconhecimento à política do país de reconectar descendentes de africanos escravizados às suas origens. Gesto simbólico que reafirma o lugar que ela ocupa no pensamento global sobre raça, cultura e diáspora.
A noite em Petrópolis reunirá três mulheres nas três últimas edições do Juca Pato — duas delas negras — compondo um momento histórico para o prêmio. Míriam Leitão, vencedora de 2024, entregará a estatueta a Sueli Carneiro. Conceição Evaristo, ganhadora de 2023, estará no palco, assim como a diretoria da UBE, liderados pelo seu presdiente, Ricardo Ramos Filho, a oradora Flávia Oliveira e o mestre de cerimônias Jamil Chade.
Ao receber o prêmio no 2.º Flipetrópolis, Sueli Carneiro não apenas reafirma sua centralidade no pensamento brasileiro: consagra uma trajetória que inspira gerações e que, como lembrou Angela Davis, permanece essencial para compreender o Brasil de ontem, de hoje e do futuro.