
Patrono do 3º Flipetrópolis, escritor petropolitano será homenageado no centenário de sua morte. Autor de Luz Mediterrânea, construiu uma poesia que ultrapassou as fronteiras de sua cidade natal e encontrou na tradição clássica uma maneira de compreender a existência humana.
Nascido em Petrópolis, em 30 de outubro de 1895, Raul de Leoni viveu apenas 31 anos. Morreu em Itaipava, em 21 de novembro de 1926, deixando uma obra poética que conquistou leitores e o reconhecimento de importantes nomes da literatura brasileira. Cem anos depois, o poeta é o patrono do 3º Flipetrópolis – Festival Literário Internacional de Petrópolis, que acontece de 12 a 15 de novembro, no Palácio de Cristal, com o tema “Meu Lugar no Mundo”. A escolha propõe uma aproximação entre a trajetória de Leoni e uma questão que atravessa sua poesia: como o ser humano encontra seu lugar na existência?
Totalmente gratuito, o 3º Flipetrópolis tem o patrocínio Ouro da GE Aerospace e Águas do Imperador, via Lei Rouanet do Ministério da Cultura, patrocínio Prata da Zweiss, Itaú e Unifase e parceria da Prefeitura de Petrópolis e Academia Petropolitana de Letras. Todas as mesas de debate serão transmitidas ao vivo pelo YouTube @flipetropolis e contarão com audiodescrição e interpretação em Libras. As ações do Flipetrópolis estão alinhadas aos princípios ESG (ambientais, sociais e de governança) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
Uma geografia construída pela imaginação
Raul de Leoni nasceu na serra fluminense, mas sua poesia percorreu outros territórios. Em Luz Mediterrânea, publicado em 1922, o poeta encontrou na cultura greco-romana, na filosofia e nas paisagens da Europa mediterrânea elementos para construir uma visão particular do mundo.
O Mediterrâneo de Leoni é também um território literário. A Grécia antiga e a Itália renascentista aparecem em seus versos como referências de uma tradição cultural que o escritor conhecia profundamente. A partir delas, investigou o amor, a passagem do tempo, a consciência da morte e as contradições da experiência humana.
Essa relação entre o lugar de origem e o universo da criação estabelece uma ligação com o tema do Flipetrópolis. “Meu Lugar no Mundo”, na obra de Raul de Leoni, pode ser compreendido como uma pergunta sobre a posição do indivíduo diante da vida. O poeta encontrou na literatura uma forma de pensar essa questão, sem limitar sua experiência intelectual às fronteiras geográficas de Petrópolis.
Em poemas como Argila, História de uma alma e A alma das coisas somos nós, a existência humana é observada por meio de reflexões sobre o corpo, a consciência e a maneira como atribuímos significado ao que nos cerca. O mundo de Leoni é atravessado pelo olhar de quem procura compreendê-lo.
Um poeta clássico em tempos de revolução
A publicação de Luz Mediterrânea, em 1922, coincide com um dos momentos decisivos da história literária brasileira: a Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo.
Enquanto os modernistas defendiam a renovação da linguagem artística, Raul de Leoni permanecia ligado às formas tradicionais da poesia. Seus versos revelavam o domínio da métrica e uma formação intelectual marcada pelos clássicos. Mas seria equivocado considerá-lo simplesmente um poeta preso ao passado.
Leoni conhecia os debates estéticos de sua época, inclusive as propostas das vanguardas europeias. Sua poesia, embora formalmente clássica, apresentava inquietações que também pertenciam ao mundo moderno. A dúvida, o desencanto e a instabilidade da experiência humana aparecem em sua obra com frequência.
Essa posição singular ajuda a explicar a dificuldade de enquadrá-lo nas classificações habituais da literatura brasileira. Raul de Leoni não foi propriamente um modernista, mas tampouco se limitou a reproduzir os modelos do século XIX.
Carlos Drummond de Andrade esteve entre os escritores que reconheceram a particularidade de sua expressão poética. A recepção de sua obra demonstra que havia, naquele período, diferentes maneiras de responder às transformações da literatura.
O centenário de uma obra que permanece
Embora sua produção tenha sido interrompida precocemente, Raul de Leoni alcançou expressiva circulação editorial. Luz Mediterrânea recebeu sucessivas reedições ao longo do século XX, e seus poemas foram estudados por críticos interessados na relação entre a tradição clássica e a sensibilidade moderna.
Com o passar das décadas, entretanto, seu nome perdeu espaço entre os autores mais frequentemente apresentados ao público. O centenário de sua morte oferece uma oportunidade de recuperar sua contribuição para a poesia brasileira e estimular novas leituras.
Há também uma dimensão particularmente significativa nessa homenagem. Petrópolis, cidade onde Leoni nasceu, volta a se encontrar com um de seus escritores mais importantes. O reconhecimento de sua obra permite aproximar a história cultural da cidade das grandes discussões da literatura brasileira.
A homenagem do Flipetrópolis não pretende restringir Raul de Leoni à condição de poeta petropolitano. Ao contrário, procura mostrar como um escritor profundamente ligado à sua origem construiu uma obra que dialoga com tradições intelectuais muito anteriores a ele e permanece aberta aos leitores de hoje.
Raul de Leoni no 3º Flipetrópolis
A programação do festival dedica uma mesa à trajetória do patrono. No dia 12 de novembro, às 16h, Gerson Valle e Marcelo J. Fernandes participam do encontro “Amar é muito mais que crer: a vida e a obra de Raul de Leoni”, com mediação de Iara Roccha.
A conversa integra a programação que também homenageia Milton Santos, pelo centenário de nascimento, Guignard, pelos 130 anos, e Conceição Evaristo, pelos 80 anos. São autores e artistas de diferentes épocas, cujas obras permitem abordar o tema “Meu Lugar no Mundo” a partir de perspectivas distintas.
No caso de Raul de Leoni, a homenagem propõe um reencontro com a poesia e com a própria história literária de Petrópolis. Seu lugar de nascimento permanece como referência biográfica, mas o lugar que construiu na literatura brasileira depende da força de seus versos.
Cem anos depois de sua morte, Raul de Leoni retorna a Petrópolis por meio de sua obra. E talvez esteja aí uma das respostas mais duradouras ao tema do festival: o lugar de um escritor no mundo continua sendo construído por seus leitores.