
Em artigo exclusivo para o Flipetrópolis, o jornalista e pesquisador Marcelo Bortoloti revela como a infância de Alberto da Veiga Guignard em Petrópolis deixou marcas profundas na obra de um dos maiores pintores do modernismo brasileiro. Entre as montanhas cobertas de névoa, os balões das festas juninas e a perda precoce do pai, o autor encontra as origens de uma sensibilidade que transformaria a pintura brasileira. No ano em que se celebram os 130 anos de nascimento do artista, Bortoloti propõe que Petrópolis reconheça e valorize esse capítulo fundamental de sua história.
Marcelo Bortoloti nasceu em Muzambinho (MG), em 1975. Jornalista formado pela PUC Minas, é mestre em Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador da história da arte brasileira, é autor das biografias Guignard: anjo mutilado (2021) e Di Cavalcanti: modernista popular (2023), ambas publicadas pela Companhia das Letras. Sua pesquisa sobre Guignard reconstitui a trajetória pessoal e artística de um dos principais nomes do modernismo brasileiro.
Não percam a exposição de reproduções de telas de Guignard que está instalada nos jardins do Palácio de Cristal, sob a curadoria de Ângela Gutierrez.
A PETRÓPOLIS DE GUIGNARD: BERÇO DE UM GRANDE ARTISTA
Marcelo Bortoloti
O aniversário de 130 anos de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é um momento oportuno para revisitar seu legado e explorar melhor as conexões que foram fundamentais em sua trajetória. Neste contexto, a ligação estreita com a Serra Fluminense, particularmente com a cidade de Petrópolis, merece ser destacada pela centralidade que ocupou em anos fundamentais da infância, um dos capítulos mais sensíveis da biografia cativante do artista.
Guignard é hoje considerado pela crítica de arte como o grande paisagista do modernismo brasileiro, e no mercado figura entre os dez pintores mais valorizados do país. Ele conseguiu desenvolver uma leitura muito particular do Brasil, lírica e amorosa, além de criar uma tradição de ensino, formando artistas importantes como Iberê Camargo, Amílcar de Castro, Maria Helena Andrés, Mary Vieira e Wilma Martins. Pouco se discute, no entanto, a relação com a Serra Fluminense, que marcou sua sensibilidade, ensinando-lhe a olhar o mundo através de uma paisagem montanhosa e de vegetação exuberante.
Nascido em Nova Friburgo, o artista chegou a Petrópolis com menos de três anos de idade, e viveu ali até os oito, quando a família migrou para a Europa. Foi na Cidade Imperial que ele acompanhou o nascimento da única irmã, frequentou a primeira escola, teve contato com as festas populares e os balões coloridos que enfeitavam os céus de junho, além de experimentar de perto a morte do pai num trágico episódio. Foi em Petrópolis, ainda, que o artista se entendeu como brasileiro, pois na sequência ele e a família passaram a viver fora do país, num prolongado exílio.
A formação em pintura e desenho de Guignard ocorreu na Europa, inicialmente na Escola de Belas Artes de Munique, depois em ateliês autônomos na França e na Itália. Quando regressou ao Brasil, com 34 anos de idade, detinha já o domínio técnico para se tonar uma figura-chave da nossa pintura moderna. Passou alguns anos no Rio de Janeiro, onde aprendeu a incorporar as cores tropicais à sua paleta, e finalmente, em Minas Gerais, atingiu a maturidade plena, em quadros como a série “Paisagens Imaginantes”, com um cenário diáfano de montanhas, nuvens e igrejas, quase sempre associado à região de Ouro Preto.
É interessante repararmos nessa obra extraordinária, fruto sobretudo da imaginação do artista, a grande familiaridade que muitas pinturas guardam com a paisagem petropolitana, seja na neblina constante, nas cadeias montanhosas e nas cores tropicais diluídas. Embora nunca tenha pintado uma tela intitulada “Petrópolis”, a cenografia da cidade, que se insinua em muitos quadros, nos ajuda a compreender melhor as origens de uma sensibilidade decantada ao longo dos anos, e a presença das memórias da primeira infância, suas paisagens e sua vivência, na obra de um artista maduro.
Um pequeno exemplo desta presença são os balões coloridos enfeitando o céu, talvez os elementos mais característicos das paisagens imaginárias de Guignard. O artista justificava a inclusão dos motivos juninos dizendo tratar-se de uma recordação de seu pai, que se matou quando ele acabara de completar oito anos de idade. O corretor de títulos Alberto José Guignard fazia aniversário no dia de São João, e gostava de comemorar a data soltando balões e fogos de artifício no quintal da casa em Petrópolis. Ao misturar, em muitas telas, tal lembrança infantil com o casario colonial característico de Ouro Preto, o que Guignard nos oferece é uma síntese afetiva, uma mistura de cenários acumulados ao longo do tempo em sua sensibilidade visual.
Observando a arquitetura histórica de Petrópolis, percebemos que a cidade preserva poucos lugares que remetem à vida do pintor. Seu avô, o comendador José Antônio Vieira Veiga, foi um proprietário conhecido na região, membro ativo da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Durante as férias de verão, sua mãe, Leonor, cantava em missas na capela do Sagrado Coração de Jesus. E foi após uma destas apresentações que ela conheceu o pai do artista. O casarão onde a família viveu, na avenida Sete de Setembro, atual rua da Imperatriz, foi abaixo e só pode ser conhecido por fotografias antigas, assim como o colégio onde estudou, o Franco-Brasileiro, na confluência com a rua Silva Xavier. Mas o túmulo do pai ainda resiste no Cemitério Municipal, embora seja uma sepultura apagada.
É, contudo, na ambiência da cidade e em sua paisagem natural que Guignard parece mais vivo. A pintora Laetitia Renault, que foi sua aluna na escola do Parque Municipal, em Belo Horizonte, nos anos 1950 – e há décadas vive em Petrópolis – reencontrou em solo fluminense o interesse pela vegetação da Mata Atlântica que o mestre tanto louvava em suas aulas. Hoje com 95 anos, ainda pintando ativamente, incorporou a algumas telas os pinheiros de araucária abundantes na Serra da Estrela, elementos também recorrentes da obra de Guignard. Esta natureza, que ele ensinou a observar e a amar, permanece como um patrimônio poético da cidade, que sua pintura reverencia e ajuda a revelar.
A CIDADE PÓS-IMPERIAL
Na virada do século XX, quando a família de Guignard chegou a Petrópolis, o município era anunciado nos almanaques como o lugar mais saudável do Brasil, com ar puro, água limpa e livre de doenças tropicais como a malária e febre amarela. Foi este o motivo da mudança, pois Leonor, sua mãe, sofria de uma doença reumática cujo tratamento exigia o ar da serra, como indicavam as teorias higienistas da época. Alberto José tinha uma casa de câmbio no centro do Rio de Janeiro, e quase diariamente tomava o trem que levava duas horas para chegar a Petrópolis. Um conjunto de fotografias de época, associadas à paisagem urbana atual, nos permite reconhecer os anos gloriosos da cidade em que o artista cresceu.
A família ocupava um casarão que pertencia ao Barão de Quartim, padrinho de casamento dos pais de Guignard. Ficava próximo à igreja matriz da cidade, e seu vizinho imediato, do outro lado no muro, era o Palácio Imperial, atual museu. A monarquia havia caído há cerca de uma década, mas a cidade guardava ainda a sombra de D. Pedro II e seus passeios matinais, bem como a elegância da aristocracia do antigo regime. E os Guignard instalaram-se no ponto mais nobre do lugar. Os moradores da rua eram todos donos de grandes fortunas: Ernesto Diniz Street, pioneiro das ferrovias no Brasil, Barão de Pedro Afonso, médico e diretor geral da Saúde Pública no Rio, Eduardo Guinle, patriarca da família Guinle, que construiu o Copacabana Palace.
O casarão de dois andares, que cedeu lugar a um edifício, tinha na entrada uma varanda, que se estendia por toda a parte dianteira, cercada por um gradil de ferro ornamentado, onde subiam trepadeiras. A avenida Sete de Setembro era uma via cheia de palmeiras e pinheiros, cortada ao centro pelo rio Quitandinha, cujo leito, tomado por hortênsias, parecia um tapete colorido entre os meses de dezembro e fevereiro. Petrópolis tinha cerca de seis mil casas e 47 ruas, quase todas iluminadas com luz elétrica. Uma cidade onde se respirava ar puro, cercada de montanhas e uma mata espessa.
Depois da queda da monarquia, os presidentes da República passavam férias no lugar, que nunca abandonou seu ar aristocrático. Nas tardes de domingo, figurões da alta sociedade circulavam pela Praça da Liberdade, a mais famosa, vestidos elegantemente com monóculos, bengala e polainas claras. O inventor Santos Dumont, habituado aos ares de Paris, sentia-se muito bem em suas praças. Passeava pelas ruas com chapéu Panamá característico, disposto a contar proezas para a juventude que o cercava. Alguns anos depois, o inventor construiu na cidade a Encantada, sua única residência no Brasil.
Naquela época, o menino Guignard descobria em Petrópolis as pequenas alegrias e os dramas da infância. De botinas e calças curtas, caminhava pela manhã sentindo nas canelas o ar gelado da cidade, em meio a uma névoa suave que embaçava a cor das hortênsias, e logo estava na escola. Seu primeiro colégio, o Franco-Brasileiro, tinha a grande vantagem de ficar a poucos metros de casa, e Guignard poderia ir sozinho, acompanhando o leito do rio, pela rua de terra onde não passava praticamente veículo algum. O colégio funcionava numa edificação instalada em terreno alto, na confluência da rua Silva Xavier com a avenida Sete de Setembro, bem diante de uma ponte estreita de madeira, na curva do rio. Lá de cima, era possível sentir os primeiros raios de sol da manhã, e avistar os casarões da vizinhança abrindo suas janelas para começar o dia, com os telhados ainda úmidos do sereno.
O diretor do colégio, um francês chamado Jean Teulère, velho corcunda, de cabeleira branca e dificuldade no andar, falava um português prejudicado pelo sotaque de Bordeaux. Era um homem de aspecto bondoso, que não teve filhos e dedicava-se com muita paciência à educação dos alunos. Na época de Guignard, a escola, restrita a meninos, oferecia um programa de instrução intenso, incluindo aulas de português, aritmética, geografia, história do Brasil, noções de ciências, higiene, caligrafia, música, desenho linear, francês e escrituração mercantil. O velho Teulère queria despertar em seus garotos aptidões que pudessem fazer deles cientistas, artistas ou homens de negócio.
Guignard nasceu com uma má formação congênita grave, a fissura labiopalatina, que lhe prejudicava a aparência e a maneira de falar, com uma abertura nos lábios e no céu da boca. Embora seja hoje um problema com correção cirúrgica possível, os métodos da época não permitiam uma solução definitiva, e o artista teve de conviver com esta anomalia por toda vida. No colégio Franco-Brasileiro, sentiu pela primeira vez o impacto social da sua condição, sendo obrigado a suportar a exclusão dos colegas e a incompreensão dos professores que subestimavam sua inteligência em razão da fala fanhosa. Tinha como aliado o cioso senhor Teulère, que de alguma forma procurava proteger aquele garoto, em quem pressentia o grande talento.
Em casa, os pais, tios e avós ofereciam uma convivência afetuosa, e procuravam integrá-lo nas comemorações alegres e tradicionais da cidade, que ele participou ativamente, em especial o carnaval e os festejos juninos. Distante da aglomeração e do calor carioca, o desfile dos blocos carnavalescos acontecia nas ruas principais, e as crianças se concentravam na Praça da Liberdade para a tradicional batalha de confetes. Em junho, as noites frias e cheias de estrelas eram animadas com barraquinhas de comida típica, foguetes e balões. Na rua Quinze de Novembro, centro comercial, alguns armazéns ofereciam um grande sortimento de fogos e balões de papel colorido, que os moradores compravam para soltar nas praças ou nos quintais – tradição popular muito arraigada no estado do Rio de Janeiro, hoje proibida. Em suas melhores pinturas, o artista maduro se via novamente criança, a contemplar o céu cheio de balões nas noites juninas.
A ESTÉTICA DO NEVOEIRO
Já foi dito que Guignard ajudou os mineiros a descobrirem e amarem a sua própria paisagem. Mas numa perspectiva mais ampla, os quadros do artista ajudam a descortinar uma estética das montanhas, que pode perfeitamente ser experimentada na geografia vertical de Petrópolis. Percorrendo espaços conhecidos da cidade como o Mirante do Cristo, o Trono de Fátima ou o Mirante do Inferno, no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, é possível testemunhar como a fusão entre o céu e a terra, o espectro gasoso do horizonte enevoado e as cores diáfanas, que se repetem nas pinturas, são também uma sugestão da atmosfera serrana de Petrópolis.
Guignard foi, durante toda a vida, um cidadão afeiçoado às montanhas. Como costumava dizer: “Sou montanhês e por isso forte de saúde”. E pintava os cenários que tinha diante dos olhos com alguma liberdade poética. Inicialmente, apenas mudava os objetos de lugar para conseguir uma composição mais harmônica. Na maturidade, foi perdendo o que os acadêmicos chamam de escorço, isto é, o modelo de pintura realista feita a partir das leis da perspectiva. Em seu lugar, surgia uma arte mais solta, plana, e com força dramática incomum.
O pintor não precisava estar diante da paisagem para refazer uma imagem que já tinha muito bem na cabeça. No ateliê, pintava cenas que não eram realistas, mas também não chegavam à abstração, permanecendo num limiar de evocação da realidade. Como comentou a especialista Taísa Palhares, seria um “lugar intermediário entre a memória e o esquecimento, o presente e o passado, a realidade e o sonho”. Nestes quadros, as igrejas, casinhas e grupos de pessoas eram transformados em signos distribuídos num ambiente cheio de névoas, quase sem solo, que não imitava lugar nenhum, mas referiam-se a um conjunto de valores culturais e formais que sua sensibilidade captava.
Revisitar a ligação fundadora do artista com Petrópolis nos estimula a ir um pouco além, prestando atenção ao arco de sua trajetória, tão ligada a regiões de grandes altitudes. Ainda na infância, ele viveu alguns anos em Vevey, nos alpes suíços, cidade espremida entre as montanhas e o lago Léman. Depois no vilarejo francês de Bagnères-de-Bigorre, na região dos Altos Pirineus, e estudou agronomia em Friesing, na Alemanha, situada no Piemonte Alpino. Regressando ao Brasil, passou longas temporadas em Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, para períodos de repouso e cura, nos quais produziu pinturas importantes e premiadas. Finalmente, escolheu Ouro Preto, na Serra do Espinhaço, que definia como “cidade amor-inspiração” para passar o fim dos seus dias.
Diante desse percurso tão singular, suas “Paisagens Imaginantes” marcadas pela verticalidade e leveza, parecem ser a consolidação de uma experiência visual e afetiva construída ao longo de décadas. Sabemos que ele começou a pintá-las ainda nos anos 1940, quando morava no Rio de Janeiro. Chegando a Ouro Preto, não teria descoberto uma paisagem nova, mas reconhecido um cenário que lhe era familiar – e na sua pintura amorosa e delicada, passou a nos oferecer um tipo de síntese, permitindo-nos descobrir e saborear as similaridades de terras montanhosas tão distantes quanto Petrópolis, Itatiaia, Ouro Preto e Vevey, na Suíça.
MARCAS DA INFÂNCIA
A obra de um artista adulto é, frequentemente, o campo de batalha onde as impressões da infância e os traumas silenciosos se transmutam em linguagem estética. As memórias mais remotas não desaparecem, permanecendo como “fantasmas geográficos” ou cicatrizes visuais que contribuem para o ritmo da pincelada e a escolha da paleta de cores. Se a infância foi marcada por um problema físico, como a sua má-formação congênita, ou emocional, como a perda súbita do pai, o artista pode passar a vida procurando recompor essa unidade através da arte. Mas como um trauma infantil pode se converter em lirismo visual? Na maturidade, a obra de Guignard transformara-se num território em suspensão, onde o artista reorganizava o caos de seus primeiros anos, transformando a dor da incompletude na beleza da transcendência.
Petrópolis foi o lugar onde sentiu pela primeira vez o impacto de sua má formação congênita. As brincadeiras das quais foi vítima na escola, a exclusão por parte dos colegas, faziam-no perceber que era uma criança diferente, e este peso, agravado em anos futuros, foi transfigurado para a obra. Em algumas representações alegóricas de Cristo ensanguentado na cruz, por exemplo, Guignard incluiu o lábio leporino como um detalhe a mais do sofrimento do mártir.
Nesta cidade onde começou a lidar socialmente com sua cicatriz, também acompanhou o enterro do pai. Alberto José era um herói para o menino, como naturalmente ocorre nas relações entre pai e filho nesse período. O artista o descrevia como um amigo, e uma das únicas pessoas que compreendeu sua sensibilidade desde cedo, dando-lhe o apoio devido. Seu túmulo permanece no Cemitério Velho, no alto da colina, hoje descaracterizado, um lugar de passagem para os moradores da comunidade que cresceu no morro à sua volta.
Quando tinha pouco mais de 60 anos, o pintor fez um retrato do pai, com a imagem que guardava na cabeça, a pedido de Lúcia Machado de Almeida. Era um retrato comovente, com olhos azuis penetrantes que não conseguimos notar nas fotos em preto e branco, mas ficaram nas retinas do filho. Tantos anos depois, ele recordava-se ainda da camisa branca de gola curta, o corte de cabelo militar, o bigode espesso e alongado, detalhes que surgiam numa imagem embaçada, como uma fotografia antiga, que o menino guardou até a morte.
O túmulo de Aberto José não tem mais a lápide com a inscrição do seu nome. Parece um canteiro suspenso, com flores selvagens que nasceram na parte alta, coberta de terra. Mas permite evocar a imagem do garoto de oito anos, amparado pela mãe, vendo ser enterrado ali o seu pai e seu herói, que ainda no dia anterior brincava com ele em casa. Aquele homem, que o compreendia e o apoiava, extinguira-se assim, sem qualquer explicação. Um gesto que levaria o menino a se perguntar chorando: por que ele fez isso conosco? E, ao procurar uma resposta qualquer a esta pergunta, chegar naquela suspeita terrível, recorrente em qualquer criança, sobretudo nas que nascem com alguma má formação: Será que foi por minha causa?
A cidade de Petrópolis foi um núcleo formador da sensibilidade de Guignard. Ali se entrelaçaram, de modo indelével, a experiência da beleza natural, o aprendizado precoce do pertencimento e as marcas profundas da dor e da perda. Essas vivências primeiras, filtradas pela memória e pela imaginação, reaparecem transfiguradas em sua pintura madura. Nas paisagens de Guignard, a Cidade Imperial reaparece não como lugar geográfico fixo, mas como atmosfera interior, origem silenciosa de uma das poéticas mais singulares da arte brasileira.
É o momento, portanto, da cidade reivindicar o seu filho ilustre. Diferentemente do que ocorre com outras figuras históricas associadas ao município, como Santos Dumont, a presença de Guignard permanece difusa, sem marcos urbanos, sinalizações patrimoniais ou espaços expositivos permanentes que remetam à sua infância e à sua trajetória. Essa ausência contrasta com o potencial simbólico da cidade, cuja paisagem, clima e ambiência dialogam de modo profundo com a poética do artista. Reconhecer Guignard como parte constitutiva da identidade cultural petropolitana permitiria não apenas reparar uma lacuna historiográfica, mas também ativar novos projetos educativos, curatoriais e turísticos, capazes de reinscrever sua obra no território que lhe serviu de primeiro horizonte visual e afetivo, transformando Petrópolis em um lugar vivo de memória e reflexão sobre a arte moderna brasileira.